terça-feira, 11 de abril de 2017

SALVADOR ► Preso por envolvimento em morte de torcedor do Bahia, estudante de Direito nega crime

Delegada diz, no entanto, que suspeito foi reconhecido por amigo de vítima que sobreviveu a ataque. Crime ocorreu após jogo entre Bahia e Vitória, em Salvador.


O jovem de 25 anos preso por suspeita de envolvimento na morte do torcedor do Bahia Carlos Henrique de Deus, de 17 anos, em Salvador, negou envolvimento no crime em depoimento, segundo informou a delegada Patrícia Brito, da 3ª Delegacia de Homicídios, que apura o caso. A Polícia Civil afirmou, no entanto, que ele foi reconhecido por testemunhas e identificado por Isaías Sousa Santos, que é amigo de Carlos e que também foi baleado no ataque, mas sobreviveu.

O suspeito, Pietro Henrique Caribé Pereira, foi preso por volta das 14h desta segunda-feira (10), após policiais do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) terem ido à casa da mãe dele, no bairro do Garcia. Segundo a polícia, Pietro é estudante de direito, motorista do Uber e segurança de uma faculdade particular da capital baiana. Ele já tem passagem por furto de veículos e chegou a ficar dez dias preso, em fevereiro desse ano, por agressão e roubo contra outro torcedor do Bahia durante uma briga.

Pietro seria apresentado à imprensa, à tarde, mas o advogado dele, Antônio Glorisman, pediu que a apresentação fosse cancelada alegando que o cliente não havia autorizado a divulgação se sua imagem. A polícia atendeu ao pedido do defensor, mas autuou o suspeito em flagrante por homicídio, por conta da morte de Carlos, e por tentativa de homicídio contra Isaías, baleado na região do pescoço. Carlos foi enterrado na tarde desta segunda no cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação.

Caso

O crime ocorreu logo depois do final do jogo entre Bahia e Vitória, que se enfrentaram pelo Campeonato Baiano, no domingo (9), na Arena Fonte Nova. Segundo a polícia, Carlos e o amigo Isaías tinham acabado de sair do estádio, na região do Dique do Tororó, e seguiam à pé pela Avenida Vasco da Gama junto com outros torcedores do Bahia -- a torcida tricolocar foi a primeira a deixar o estádio após o jogo. Carlos e Isaías usaram a camisa do clube.


Em seguida, segundo a polícia, dois ônibus da torcida "Os Imbatíveis", do Vitória, e dois carros de passeio acompanharam os torcedores do Bahia e os cercaram perto de um posto de combustível. Conforme a investigação, Pietro estava em um dos carros com outras quatro pessoas.


"Não foi algo marcado anteriormente. A vítima e o suspeito não tinham nenhuma rixa por conta de alguma situação anterior. Não tinham rivalidade. O que houve foi o encontro entre esses torcedores, após o jogo, e o confronto que terminou com um morto e outro baleado. Ficamos sabendo que uma menina também tinha sido baleada na situação, mas ainda não conseguimos localizá-la", afirmou a delegada Patrícia Brito.
Carlos Henrique de Deus, de 17 anos, morreu baleado após BA-VI (Foto: Imagens / TV Bahia)

Após se ver cercado pelos torcedores do Vitória, segundo a polícia, os dois amigos e os demais torcedores do Bahia se assustaram e começaram a correr. Carlos tentou se esconder no lava jato do posto, mas segundo a polícia, foi perseguido, espancado e morto com três tiros.

A delegada diz que todas as informações levantadas pela polícia foram com base no depoimento de testemunhas e do amigo de Carlos que sobreviveu ao ataque. "Ele [o suspeito preso] não admite, mas as pessoas ouvidas, entre elas a vítima sobrevivente, o reconheceram como sendo um dos autores dos disparos", destacou.

A outra pessoa que também teria disparado tiros contra as vítimas, segundo a polícia, estaria no carro com Pietro e está sendo procurada, assim como os demais ocupantes do veículo, por estarem presentes na situação. Nenhuma arma que teria sido utilizada no crime foi encontrada ainda, segundo a polícia.

De acordo com a polícia, Pietro disse que foi integrante de Os Imbatíveis até o dia 17 de fevereiro deste ano, quando foi preso por envolvimento em uma briga com um torcedor do Bahia. Ele disse que desde então não faz mais parte da torcida organizada, mas que continua indo aos jogos do Vitória.

O advogado de Pietro, Antônio Glorisman, nega envolvimento do cliente no crime. Ele disse que Pietro foi ver o jogo, no domingo, com a namorada e com o cunhado e que, depois da partida, foi para a casa da mãe, no bairro do Garcia.

"Ele saiu do estádio às 18h40 e chegou em casa às 19h10. Foi direto e não se envolveu em confusão nenhuma. A todo tempo estava acompanhado da namorada e do cunhado, que podem confirmar isso para a polícia", destacou. O advogado ainda disse que a namorada de Pietro deve prestar depoimento nesta terça-feira (11).

Duas horas depois de chegar na casa da mãe, segundo o advogado, Pietro foi para a casa da namorada, no bairro de Cajazeiras, onde passou a noite. "Ele estava hoje na casa da namorada quando ficou sabendo que policiais estavam atrás dele. Os policiais foram o procurar na casa da mãe, mas não o encontraram. A mãe, então, ligou para ele e ele saiu da casa da namorada e foi para o encontro da polícia", disse.

Segundo a delegada, Patrícia Brito, Pietro achou que a polícia tinha ido atrás dele para o levar para uma audiência marcada para esta segunda-feira por conta do crime cometido por ele em fevereiro contra um torcedor do Bahia. Pietro responde por esse crime em liberdade após ficar dez dias preso e ter sido liberado após o pagamento de fiança.

A delegada disse, ainda, que está analisando câmeras de segurança da área para tentar descobrir se há mais envolvidos no crime. "Já ouvimos frentistas do posto, testemunhas, a vítima sobrevivente. A gente não descarta a presença de outras pessoas e continuamos investigando", destacou.

Pressentimento

Em entrevista à TV Bahia, o pai de Carlos Henrique disse que teve um pressentimento no dia do jogo e pediu ao filho para não ir ao estádio.

“Eu estava com um pressentimento ontem. 'Não vá para esse jogo', [eu disse]. 'Mas já comprei o ingresso', [respondeu Carlos]”, afirma o pai dele, José Carlos de Deus. O jovem era torcedor do Bahia e na próxima quinta-feira (13) iria completar 18 anos. Como presente, pediu aos pais a liberação para assistir ao jogo. Carlos era filho único.

“BA-VI da paz? Que paz? levou meu filho”, desabafa o pai. “Meu filho nem bebe, quem dirás ser de torcida organizada. Meu filho foi mais uma vítima dessa violência em Salvador. O que estou sentindo hoje, amanhã pode ser qualquer um que vai sentir da mesma forma”, afirma o pai.

O tio do adolescente morto, Jorge Santos, conta que o filho também foi ao estádio, com outro amigo que foi baleado. “Passou esse carro, saltou e já foi dando tiro. Todo mundo no corre-corre, mas ele é tão tranquilo que ficou sem saber onde correr”, relatou.

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