sexta-feira, 11 de agosto de 2017

SALVADOR: Cansados de assaltos, empresários fazem vaquinha para construir base da PM

Até agora, foram investidos R$ 80 mil em unidade, que ficará no bairro de Granjas Rurais (próximo à Estação Pirajá). A reportagem obteve relatos de arrombamentos, assaltos, tiroteio e até tentativa de estupro

Uma medida extrema precisou ser adotada por empresários para minimizar a insegurança no bairro industrial de Granjas Rurais Presidente Vargas, entre a Estação Pirajá e a Brasilgás, nas proximidades da BR-324. Eles decidiram construir uma unidade policial para garantir a presença fixa da PM no local. Até agora, os empresários já investiram R$ 80 mil no imóvel, mas esse valor deve chegar a R$ 100 mil daqui a 15 dias, quando a obra estiver concluída.


Neste ano, foram registrados 12 homicídios e 78 crimes contra o patrimônio no bairro, de acordo com a 11ª Delegacia (Tancredo Neves), que cobre a área. A reportagem esteve no local e ouviu relatos de assaltos a funcionários, clientes e caminhoneiros, além arrombamentos de empresas, tiroteio e até tentativa de estupro. Os casos relatados ocorreram no período de um ano.
A gota d’água foi o sequestro de um gerente de empresa, em junho do ano passado, quando ele chegava para trabalhar na fábrica do Café Pilão, uma empresa da Jacobs Douwe Egberts (saiba mais abaixo). Depois disso é que começou a construção da unidade, em frente à Defenzia, na Rua do Luxemburgo. Ela tem 500 metros quadrados, três alojamentos e cinco salas - uma delas destinada ao armazenamento de armas e munições.
“O que está faltando é só colocar as divisórias, forros e alguns ajustes”, afirma Val Dias, idealizador do projeto.

Val Dias é dono da Defenzia, empresa do ramo de equipamentos de segurança pública. Ele contou que a construção tem o consentimento da Polícia Militar.

Roubo no caminho
Pouco mais de 40 empresas fazem parte do bairro industrial, incluindo multinacionais, que geram cerca de 4 mil empregos. Um desses estabelecimentos é a RD Eletrodiesel, empresa de manutenção de motores. Com apenas cinco anos de atuação no local, o empreendimento já passou por três assaltos no intervalo de um ano. Foram levadas máquinas, ferramentas e televisores, dando um prejuízo estimado em R$ 50 mil, segundo o gerente Alex Amaral.

A empresa emprega 12 funcionários e 70% deles já foram roubados. “Geralmente, acontece antes e depois do expediente. Eles (os ladrões) vêm de moto ou de carro, em dupla ou em trio”, descreve ele. Como a região tem proximidade com a Estação Pirajá, muitos empregados pegam ônibus no terminal e a maioria deles foi assaltada no caminho, num trecho de 1,3 km.

Outra beneficiada pela iniciativa será a empresária Silverlane Barbosa, proprietária do Restaurante Maná, na Rua Dominica, que está há dez anos no local servindo refeições principalmente para os funcionários das empresas. O restaurante possui seis empregados e todos já foram assaltados sob a mira de uma arma. “Como comerciante, eu sempre percebi a carência de polícia aqui. O restaurante foi assaltado três vezes. A última vez foi um arrombamento em agosto do ano passado”, lembra. Além de dinheiro, os ladrões levaram equipamentos caros como televisão e balança.

Segundo ela, quase todas as ações costumam acontecer cedo, ou no início do expediente, antes das 7h, ou por volta das 18h30, quando o estabelecimento já fechou. “Nesse último assalto, eu saí às 18h e a câmera mostra que a ação deles foi meia hora depois. Parece que só estavam esperando.” Ainda segundo a comerciante, já às 17h, o local é considerado perigoso. “A iluminação é péssima, a estrada é ruim, esburacada, o que dificulta o acesso e a movimentação de pessoas”, explica. 

De acordo com informações da 11ª Delegacia, o maior número de ocorrências é mesmo de assaltos às empresas. “As maiores incidências de furtos são em galpões, porque ali tem muitos centros de distribuição e empresas de valores. Além disso, a chegada do metrô fez aumentar a movimentação de pessoas naquela região, o que contribui para mais roubos”, conta um investigador da unidade, que preferiu não se identificar.

Ainda segundo ele, os casos ocorrem mais na área próxima à Estação Pirajá, como a Rua da Indonésia e a saída da Avenida Gal Costa. 

Polícia sobrecarregada
Cobrindo 30 localidades da região, a delegacia tem limitações para acompanhar os casos, porque, segundo o investigador, o efetivo é incompatível com o número de ocorrências. Vinte e cinco locais são considerados perigosos, segundo o investigador. “Temos necessidade de um policiamento maior, sim. O trabalho em conjunto com a PM, com certeza, melhora ambos os serviços”, acredita ele.

Recentemente, a 11ª Delegacia assumiu a cobertura de bairros como Santo Inácio, Calabetão, Granjas Rurais e Complexo Penitenciário, que antes pertenciam à área fronteiriça da 10ª Delegacia (Pau da Lima). Com oito investigadores, a 11ª registra, em média, 15 mil ocorrências anuais de todos os tipos. Neste ano, o número já está em 9 mil.
Em nota, a assessoria de comunicação da Polícia Militar informou que a parceria com empresários implicou na criação da sede avançada do Pelotão de Emprego Tático Operacional (Peto), da 48ª CIPM nas Granjas Rurais, para oferecer mais segurança no local, bem como agilizar o atendimento de ocorrências na Estação Pirajá, Calabetão e Mata Escura.

O efetivo do Peto é composto por 20 policiais militares. A PM ressaltou ainda que “essas parcerias são importantes para o envolvimento dos segmentos sociais para aprimoramento do serviço prestado pela corporação”.

Sequestro de gerente e arrombamentos
O sequestro de um gerente da Café Pilão foi o estopim para a construção da unidade que servirá de base para a PM em Granjas Rurais. “Me deixou perplexo”, argumentou o empresário Val Dias, justificando a ideia de construir a casa, já pintada com as cores da corporação.

Ainda segundo ele, o episódio aconteceu na primeira semana de junho do ano passado. O gerente chegou para trabalhar em carro próprio e aguardava o portão da fábrica abrir quando foi surpreendido por dois homens armados. “Levaram o carro e ele junto. Depois, soubemos que o gerente foi deixado em Simões Filho”, relatou Val.

Recém-chegado à região, Jair Lopes, proprietário de um galpão, já amargou um prejuízo de R$ 15 mil.
“Não tenho nem um mês aqui e arrombaram o meu galpão. Usaram um caminhão para levar uma carga de cimento e ferramentas. Arrombaram o cadeado”, conta Jair Lopes.
Como solução, ele está construindo um muro no entorno e colocará uma guarita e um segurança. “Porque senão levam até o galpão”, ironizou.
O responsável pela área patrimonial da Brilux, Marcos Rapouso, disse que a empresa tem 305 funcionários e, em um ano, 60 já foram roubados. “Se não for mais. Outro dia, uma funcionária nossa só não foi estuprada porque lutou com o maníaco, que ficou com medo e saiu correndo”, relatou.

A solução foi a empresa contratar uma equipe de segurança para escoltar os funcionários até o ponto de ônibus.

“Há uns três meses, o pessoal da escolta impediu o assalto aos funcionários no ponto de ônibus, na Brasilgás, e houve confronto, mas ninguém saiu ferido”, lembrou Marcos Rapouso.

O gerente industrial da Iplasa disse ao CORREIO que dos 210 empregados, cerca de 60 já foram assaltados. “Além disso, uma cliente nossa teve o carro roubado quando tinha acabado de parar em frente à empresa”, contou ele. O caso aconteceu há cerca de 20 dias.

No dia 16 de junho do ano passado, funcionários e clientes da Guebor Veículos passaram por momentos de tensão. Dois homens roubaram a oficina de reparos e pintura da empresa, que fica às margens da BR-324. “Enquanto um apontava a arma para mim, o outro entrou e fez a 'coleta'”, relatou o porteiro Edmilson Ramos. “Puxaram a minha gargantilha e vi um deles levando o dinheiro e o relógio de um cliente”, disse a recepcionista Ingrid Guimarães. No total, foram cinco vítimas, sendo quatro funcionários e um cliente.

O empresário Val Dias disse que nunca foi assaltado e nem seus funcionários, mas resolveu dar início à construção da unidade diante das inúmeras ocorrências com empregados de outras empresas, aliado à falta de policiamento no local. “Pus 60% de investimento e iniciei a obra por conta própria, no escuro”, disse.

Clima de tensão entre quem trabalha no local
A repotagem percorreu o bairro industrial de Granjas Rurais Presidente Vargas durante pouco mais de duas horas e percebeu que as pessoas andam com medo pelas ruas. O clima é de tensão. E mais: nenhuma viatura da Polícia Militar foi vista circulando na região, nesse período.

“Difícil não ter histórias para contar. Conheço relatos de colegas que foram roubados quando chegaram para carregar ou descarregar”, disse o caminhoneiro Heardman Silva de Jesus, enquanto esperava na fila de caminhões para carregar. “Fico ligado. Qualquer coisa, movimento estranho, desço correndo”, complementou.

Segundo os relatos, os assaltos, em sua maioria, são cometidos por duplas de motoqueiros ou por trio ou quarteto em carros de vidros escuros.
“É o que mais aparece por aqui e, em todas as situações, os criminosos estão armados, alguns são agressivos, espancam as vítimas antes de roubá-las”, comenta Val Dias.
Os horários mais perigosos são entre 5h e 8h e entre 20h e 23h. “São, geralmente, quando os empregados entram ou saem das empresas. A maioria chega ou vai embora de ônibus e precisa andar até os pontos que ficam na Brasilgás ou no acesso ao bairro de Pau da Lima”, disse o empresário.

A reportagem notou outro fator que faz com que funcionários e as empresas sejam alvos fáceis dos bandidos. “A região é repleta de rotas de fuga. Quem entra aqui consegue sair tranquilamente para Mata Escura, Santo Inácio, Tancredo Neves, São Marcos, Pau da Lima, Pirajá, BR-324 e São Caetano, por exemplo”, relatou Marcos Rapouso, responsável pela área patrimonial da Brilux.

Depois que a casa estava pronta, o empresário Val Dias procurou o major Costa Ferreira, comandante da 48ª CIPM (Sussuarana). “Ele aprovou e disse que seria uma forma de descentralizar o comando para um melhor atendimento também aos bairros de Santo Inácio, Mata Escura e Calabetão, já que a base é em Sussuarana”, afirmou Val. 
(Correio)

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