terça-feira, 8 de agosto de 2017

FEIRA DE SANTANA: Artesão cria obras em couro e madeira inspiradas no universo sertanejo

As mãos calejadas e a simplicidade no modo de ser e de viver são as principais ferramentas de trabalho do artesão feirense Gastão Sandes Mascarenhas, de 71 anos. A paciência e o capricho são detalhes a mais e dão forma a diversas peças em couro e madeira que segundo ele, têm inspiração principalmente nos elementos da cultura sertaneja e nordestina.

Trabalhando com essa atividade há aproximadamente 50 anos, Gastão já passou por altos e baixos na vida e conta que a vocação para ser artesão veio de forma divina e também inexplicável. Quando jovem, deixou a cidade natal e resolveu ir morar no Rio de Janeiro e ir em busca de oportunidades de trabalho.

Em terras cariocas começou lavando carros e em seguida foi trabalhar em empresas automobilísticas. Segundo ele, apesar de muitas tentativas, nada durava muito tempo e as coisas não tinham uma continuidade. Até que um dia, uma cunhada o convidou para participar de uma reunião com um senhor que era astrólogo e nesse momento ele teve grandes revelações místicas sobre o que aconteceria futuramente em sua vida.
Eu tinha vinte e poucos anos e nada que eu fazia ia pra frente. Aí encontrei esse astrólogo e ele falou assim: ‘Vá embora do Rio de Janeiro o mais rápido possível e escolha outro lugar do Brasil para morar. Lá você vai se descobrir. Porque você é um artista nato e ainda não sabe’, disse.

Foi então depois dessa comunicação com o astrólogo, que Gastão que nunca tinha feito nada em madeira e couro, resolveu voltar para Feira de Santana. Simpatizante do movimento hippie, o único tipo de artesanato que ele fazia eram pulseirinhas com miçangas. Certo dia, sentando em uma calçada na Rua Castro Alves, ele então foi surpreendido por dois homens, sendo um deles alemão, que desceram de um carro e lhe fizeram uma grande encomenda.

“Quando o astrólogo falou que eu ia me descobrir artista eu pensava que eu podia ser um jogador de futebol ou cantor. Até que surgiram essas pessoas nesse carro com a placa de Petrópolis. Estava sentado em uma esteira, fazendo pulseirinhas, na frente de um salão de uma amiga minha e então eles desceram e perguntaram se eu fazia algumas peças em couro. Eram maletas, bolsinhas, cintos e carteiras. Eu que nunca na vida tinha cortado um pedaço de couro, só vinha em minha intuição que respondesse sim a todas as perguntas do alemão e do seu intérprete”, relembra.

Foi respondendo sim e afirmando que sabia fazer as peças em couro que Gastão fechou com o alemão uma grande encomenda. O senhor lhe deu dinheiro para que pudesse se manter e também comprou todos os materiais para a fabricação dos produtos. Informou que retornaria após quarenta dias e assim faria o pagamento mediante a entrega dos materiais.
“Eles perguntaram: ‘Você faz essa bolsa? E essa maleta? E esse chaveiro? Tudo eu falava sim e pensava comigo Ai meu Jesus! Foram muitas coisas que eles pediram e então fizeram a encomenda. Me deram um dinheiro para que eu me alimentasse e compraram todo o material que eu precisava. Eles falaram que voltariam com 40 dias e foram embora. Depois que o carro arrastou, eu falei Deus, me ajuda e tudo dará certo! Aí resolvi alugar a frente do salão que eu ficava, comprei papelão, fechei tudo de compensado e chamei umas mulheres da vizinhança para me ajudar. Inicialmente eu comecei a fazer os moldes, depois cortava e começava a colar e costurar as peças. Quando não saía bom, a gente voltava e refazia; consertava. Aí foi indo, foi indo, tudo deu certo, Deus foi abençoando e terminamos as encomendas”, relata.

Depois de 42 dias, o mesmo carro que surpreendeu Gastão sentado em uma esteira, parou novamente em frente ao salão de Dona Raulinda. O alemão e o motorista-intérprete vieram buscar os produtos e como foi combinado fizeram o pagamento. Gastão recordou que eles foram verificando e conferindo as peças, multiplicando e calculando o valor total da encomenda. “Tudo na época deu 17 milhões, eu que nunca vi tanto dinheiro na vida, fiquei tão alegre, que pra mim aquilo foi um milagre em minha vida”, acrescenta.

Assim se revelava para Gastão o artesão nato que ele é e depois dessa grande encomenda, o alemão ainda solicitou mais oito pedidos de produtos feitos em couro. Ele também levou Gastão ao banco, pediu que o gerente abrisse uma conta para o artesão e assim, todo dinheiro que ele fosse receber com o seu trabalho seria depositado, para que pudesse ter uma poupança e uma garantia de futuro. De acordo com Gastão, o homem tinha uma rede de lojas e shopping na Alemanha e importava vários produtos artesanais para que fossem comercializados no exterior.
Sua relação com Gastão continuou ainda por um período, até que ele fez uma proposta ao artesão para que fosse para a Alemanha, produzir todas as peças lá e também ensinar o ofício que tinha aprendido para outras pessoas.

“Quando eu recebi o dinheiro do primeiro trabalho a primeira coisa que eu fiz foi ligar para o Rio de Janeiro e contar toda a história a minha família. Também levei as mulheres da vizinhança que trabalharam comigo pra gente comemorar no Timbau. Lá a gente fez uma festa e eu paguei a todo mundo. O trabalho continuou e eu cheguei a fazer outras encomendas até chegar o convite para trabalhar na Alemanha. Eu até cheguei a tirar passaporte, mas acabei desistindo e fiquei por aqui mesmo. Com o dinheiro que eu guardei no banco, comecei a organizar a minha vida e montei meu galpão de artes”, salienta.

Nessa época, Gastão viveu tempos de abundância e foi muito bem sucedido financeiramente. Comprou casa, carro, construiu prédios, fazenda, abriu uma empresa de exportação, casou e foi até para os Estados Unidos.

Tudo em sua vida ia de vento em popa e aí ele começou também a fabricação de móveis rústicos e de madeira, seu trabalho começou a ser conhecido na cidade e surgiam encomendas para todos os lugares do Brasil e também de vários países do mundo. Olhares de arquitetos e artistas plásticos se voltavam para o artesão feirense e seu trabalho foi crescendo cada dia mais.

Reviravolta

Tudo ia muito bem na vida do artesão. O casamento, o trabalho e os filhos também chegavam para completar a felicidade. A companheira que está com ele há 43 anos, estava sempre junto cuidando de tudo e de todos. Aprendeu também a trabalhar com o couro, a madeira e o ajudava na oficina. Gastão formou uma equipe de trabalho, tudo ia fluindo e na oficina de artes se fazia de tudo. Desde sapato, tamanco até poltronas e cavalos.
A chegada de um filho autista acabou desacelerando o ritmo de trabalho da família e a luta até chegar a um diagnóstico preciso foi incessante. Foram muitas consultas, muitos tratamentos, muitas viagens e muitas despesas que acabaram por dilacerar o patrimônio de Gastão.

“Tenho um filho autista que hoje está com 34 anos. Ele está internado em um hospital psiquiátrico em Araras em São Paulo. Ele está há mais de 30 anos lá, o hospital está sendo privatizado e os pacientes serão encaminhados para casa. Ele tem distúrbios neurológicos muito severos. Era muito agitado, agressivo, mordia e aqui não encontrávamos tratamento. Ele agora não fala mais, não anda e estamos organizando para trazê-lo para Feira de Santana. Procuramos durante muito tempo um tratamento para ele e com isso gastamos muito. Acabamos perdendo tudo e fizemos tratamentos caríssimos com a promessa que ele ficaria bom. Mas eu tenho sempre fé em Deus e sei que ele vai me ajudar sempre”, afirma.

Gastão salienta também em virtude do internamento do filho autista em São Paulo, a família precisou alugar uma kitnet para que a sua esposa ficasse mais próxima do rapaz. Ela atualmente está em Araras, e quando a condição permite, vem a Feira de Santana visitar os outros filhos e o marido. Gastão conta, que além de ter a situação financeira abalada, convive também com a solidão e saudade da esposa e do filho. Morando sozinho em um residencial no bairro Pedra do Descanso, sua vida é dedicada exclusivamente ao seu trabalho de artesão e a oficina que mantém alugada na Rua Juracy Magalhães, no bairro Ponto Central.

O filho caçula foi o único que aprendeu o ofício do pai, e é ele quem lhe acompanha na oficina e dá continuidade ao trabalho de Gastão. Pai e filho trabalham diariamente com paciência e dedicação, entalhando a madeira e dando diversas formas a matéria prima do couro.

“Em casa eu vivo só. Minha vida é aqui nessa oficina e meu filho caçula trabalha comigo. De noite eu preparo meu feijão, minha bóia e trago pra cá. Chego aqui todos os dias 6h30 e saio 17h30. O trabalho muitas vezes não acaba na oficina e eu sempre levo alguma coisa pra terminar e fazer em casa. Eu agradeço a Deus por mais um dia e nada me desanima nem me abate”, conta.

O rádio não atrapalha quem trabalha

Móveis, peças em couro e madeira, placas de fazenda e itens decorativos são alguns itens que fazem parte do cenário da oficina de gastão. O lugar tem um encantamento especial e as cores e vernizes das pinturas embriagam os olhos dos visitantes de uma forma lúdica e ao mesmo tempo que remetem ao universo sertanejo, se misturam com a história de vida e as lutas e glórias daquele simples artesão, de dedos ágeis e ao mesmo tempo delicados e de um abraço cheio de conforto e de força.

O som do rádio sintonizado na Sociedade AM traz ainda mais vibrações ao lugar e para Gastão, o meio de comunicação, além de ser uma agradável companhia, lhe permite sempre estar informado. Parafraseando o radialista Tanúrio Brito, ele ressalta: ‘O rádio não atrapalha quem trabalha’. “Todos os dias eu trabalho com o rádio ligado e através dele consigo me transportar para várias dimensões”, explica.

Amigo de alguns radialistas, jornalistas e personalidades feirenses, Gastão também tem em sua oficina arquivos de muitas fotografias e recortes de jornais e revistas que ele deu entrevista e guarda com muito carinho. Apesar de ser muito conhecido por pessoas da área de comunicação e também do segmento artístico, ele lamenta que não sente reconhecimento da cidade e principalmente do poder público.
“Eu tenho 50 anos que trabalho com isso e nunca me chamaram pra nada. Tudo que eu produzo eu faço questão de dizer que é “made in Feira”. Mas enquanto eu puder e Deus me der saúde eu estou aqui. Espero que meu filho dê continuidade a esse trabalho e com isso eu já me sinto orgulhoso. Eu e minha família já passamos por muita coisa juntos e tendo fé a gente vai dando um passo de cada vez. Dia após dia”, salienta.

Filho caçula de Gastão, Igor Farias Mascarenhas tem 25 anos e ressalta que desde pequeno sempre se inspirou e observou o trabalho do pai. Para ele, ser artesão é um trabalho de paciência e dedicação e também é um refrigério para a mente e alma.

“Eu enxergo esse trabalho como uma atividade bonita e que pouca gente faz. É preciso ter bastante paciência e vontade, senão não dá certo”, afirma.

Aprendizados

O misticismo, a religiosidade, a fé e a ludicidade , assim como as lutas e momentos tristes e felizes escrevem a história de Gastão. Um artesão que carrega Feira de Santana no coração e em suas obras. Ele salienta que sua próxima missão é trazer o filho para perto da família e no aconchego do lar pedir força a Deus para que possa ter coragem e sabedoria para tocar a vida.

“Quando meu filho foi internado no hospital em Araras, ele entrou em uma turma de 60 meninos. Todos já morreram e desse grupo só tem ele. Minha esposa diz que por algum motivo tivemos que passar por isso e assim é a vida. Agora quero que ele venha para perto de nós e para isso vou precisar da ajuda de alguns amigos. O que eu mais quero é todos perto de mim. Quando perdemos tudo, fomos morar no fundo da casa de minha sogra. Minha esposa disse que eu não deveria desanimar e que era para procurar um emprego. Eu disse, por favor, não fale isso. Minha vida é isso aqui. Foi esse dom que Deus me deu e eu amo tudo que eu faço”, encerrou Gastão com os olhos marejados de emoção e gratidão.(Acorda Cidade)

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